quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Viagra feminino



Sempre que as mulheres vêem alguma chamada do tipo, o que acabam descobrindo (decepcionadas) são géis e creminhos que esquentam, excitam, etc... Muitas mulheres se perguntam: porque não inventam um Viagra feminino? Se você leitora já se perguntou isso acredite: você não está sozinha. Algumas pesquisas indicam que de 50 a 70% das brasileiras tem dificuldades para chegar ao orgasmo ou nunca sentiu um - uma quantidade assustadora. Esse número pode ser ainda maior, pois muitas mulheres não tem coragem de dizer isso a ninguém, nem a seu ginecologista. Em comparação, uma campanha em 2002 trazia o Pelé como figura principal incentivando os homens com dificuldade de ereção a procurar ajuda médica e psicológica. Desde o lançamento do Viagra há mais de 10 anos, vários outros medicamentos surgiram fazendo concorrência direta ao pioneiro e com preços cada vez mais acessíveis. Mas para a mulher nada... Mas porque ninguém se preocupa com a assustadora taxa de anorgasmia feminina? Porque ninguém fala no assunto?

Simplesmente porque a capacidade reprodutiva e de dar prazer da mulher não se altera com a falta de orgasmo. Além disso, o prazer da mulher não é algo valorizado e a ciência não se interessa em resolver esse problema. Fora do Brasil existem sim opções de medicamentos que prometem um auxílio nesse sentido, como o Gold MAX, mas é tudo ainda muito obscuro e mal se fala no assunto, bem diferente da realidade masculina. Atualmente existe uma corrente de pesquisadores que trabalha com a utilização do Viagra masculino em mulheres, mas tudo ainda muito devagar.

É impressionante a quantidade de mulheres que nunca tiveram um orgasmo, ou que conseguiram poucas vezes na vida, e quase todas elas nunca contou isso a ninguém. Mas então o que será que acontece com as mulheres? O que se sabe é que a dificuldade de a mulher atingir o orgasmo durante a relação sexual tem origem na maioria dos casos em questões psicológicas e emocionais, sendo raríssimas as dificuldades físicas propriamente ditas.

No aspecto físico podemos citar fatores como o uso dos anticoncepcionais, antidepressivos, calmantes e outros medicamentos que diminuem a libido. Também estão nesta lista os vários períodos conturbados na questão hormonal feminina como, por exemplo, a menopausa e o período pós-parto. Mas esses fatores são exceções.

O verdadeiro centro da questão está no psicológico e no emocional da mulher. Vamos aqui conversar sobre vários fatores que podem causar esse problema.

Desde criança, a mulher é educada para encarar seu corpo como algo que não deve ser tocado nem explorado, sendo desencorajada e até punida. Já os meninos e própria cultura encaram a masturbação como algo normal do adolescente. É até mesmo esperado que o menino se “tranque no banheiro”, compre revistas de “Mulher Pelada”, fale sobre o assunto. É um tratamento totalmente oposto do que se daria a um menino flagrado se masturbando no banheiro do que a uma filha mocinha fazendo o mesmo. A maioria das mulheres não se toca, não se masturba, não consegue nem atingir o orgasmo sozinha, fica constrangida até mesmo consigo mesma, sozinha entre quatro paredes. Ai fica aquela coisa: “Se sou casada (ou namoro), não tenho necessidade disso” ou “Meu marido não pode saber que faço isso, o que ele iria pensar”? Como se masturbação fosse coisa de mulher sozinha e mal amada ou de quem não está satisfeita com o parceiro. Masturbação é apenas uma maneira de obter prazer com seu próprio corpo, se conhecer e relaxar. Coisa que os homens há séculos já entenderam, estão há anos-luz à frente das mulheres nesse quesito.

A preocupação com a estética corporal ou o medo de se expor durante o ato sexual também contribuem. A mulher é sempre ordenada a se cobrir, desde criança, e quando nua sente-se constrangida, exposta, vulnerável, sente a necessidade de se cobrir ou de apagar a luz.

Então aqui temos a primeira resposta: vergonha do próprio corpo e do próprio prazer. Você pode pensar: “Não é o meu caso, eu sou muito bem resolvida, não tenho problemas com isso”. Mas a pergunta é: quantas vezes você parou um tempinho pra curtir seu próprio corpo? Você nunca quis apagar a luz ou se cobrir?

E a questão vai mais além: se não consegue atingir o orgasmo sozinha, como vai saber direcionar a relação sexual para atingir seu objetivo? Algumas mulheres só conseguem em uma posição específica, outras somente com sexo oral, outras com as pernas fechadas, outras abertas... E a maioria nem sabe como consegue. É difícil mostrar o caminho das pedras se você nunca passou por ali sozinha.

O segundo problema que encontramos é que apesar de ser desencorajada a se tocar desde criança, de o assunto masturbação- prazer ser um tabu, ironicamente a mulher sente na pele a ditadura do “tenho que ter um orgasmo ou meu parceiro vai pensar que sou frígida”. É um mito dizer que TODAS as mulheres tem orgasmos em TODAS as relações sexuais, mas é o que a sociedade prega, os filmes mostram... O mito da mulher que sempre chega lá é uma inverdade. Primeiramente porque depende de questões emocionais e psicológicas envolvidas, segundo, pois a questão não é tão simples assim. O que ocorre é que desde o inicio do namoro a mulher se sente pressionada, quer passar uma boa imagem, “cansa” de tentar, tem medo que o parceiro se canse e acaba indo pelo caminho mais fácil: fingir pra acabar com aquela pressão, o que vai se repetindo em outras relações do casal. O que era pra ser prazeroso acaba sendo algo que se deseja que termine logo, tamanha a pressão que a mulher sente durante a relação e ela desiste de tentar. E depois que se começou fingindo, como dizer a verdade? Como desfazer isso? Chegamos a mais uma resposta: a ansiedade e a pressão por ter o orgasmo. É um ciclo vicioso – a ansiedade leva ao não orgasmo e o não orgasmo leva à ansiedade.

Outro grande mito: o de que a penetração é o principal componente do orgasmo feminino. A maioria dos homens (e acredite das mulheres) ignora o fato de que o grande centro do prazer sexual da mulher não é a vagina e sim o clitóris – que equivale ao pênis no homem. Sim, esse que aparece como um mero figurante na cena sexual na verdade é o ator principal. A quase totalidade das mulheres chega ao orgasmo SOMENTE com a estimulação do clitóris durante a relação sexual, mas muitas mulheres não o fazem, pois tem vergonha de o parceiro pensar: “Não estou sendo bom o suficiente?” E muitos pensam mesmo, o que é um erro.  Você pode nunca chegar lá, pois está indo pelo caminho errado, usando o órgão errado. Nossa sociedade elegeu o Falo (órgão masculino) como o principal componente do prazer feminino, sendo que na verdade o que dá prazer a cada ser humano está no seu próprio corpo, no caso da mulher o clitóris. Assim chegamos a mais uma questão: a desinformação e o preconceito que fazem com que a mulher não se conheça e que o homem também não entenda como o corpo da mulher funciona, e continue achando que somente a penetração é o suficiente. Outra série de questões como o tempo que a mulher necessita para atingir o clímax – que é maior do que o homem, ou até mesmo o fato de que a estimulação deve ser constante e sem interrupções são fatores desconhecidos pela maioria.

Enfim, leitoras não há um Viagra feminino e milagroso, mas o mais importante é que a mulher saiba que é possível ser diferente. E saiba que cada mulher não está sozinha, há milhões de mulheres passando pela mesma dificuldade. Não há nada de errado com essas mulheres, elas apenas precisam se conhecer mais e buscar ajuda. São séculos de repressão sexual, não é fácil quebrar esses tabus. Certa vez li uma frase brilhante: “o órgão sexual principal da mulher está na cabeça”, por isso o fator psicológico é tão importante.

Conversando sobre o assunto, dando uma passadinha na Sex Shop, lendo, informando-se e buscando ajuda, a mulher pode dar um passo adiante. Auxílio médico e psicológico ajudam a tornar a vida sexual mais rica, feliz e verdadeira.  O importante é não desistir e não se conformar com somente dar prazer, é necessário e saudável, é essencial ter prazer na relação sexual.