Sempre que as mulheres vêem alguma chamada do tipo, o que
acabam descobrindo (decepcionadas) são géis e creminhos que esquentam, excitam,
etc... Muitas mulheres se perguntam: porque não inventam um Viagra feminino? Se
você leitora já se perguntou isso acredite: você não está sozinha. Algumas
pesquisas indicam que de 50 a 70% das brasileiras tem dificuldades para chegar
ao orgasmo ou nunca sentiu um - uma quantidade assustadora. Esse número pode
ser ainda maior, pois muitas mulheres não tem coragem de dizer isso a ninguém,
nem a seu ginecologista. Em comparação, uma campanha em 2002 trazia o Pelé como
figura principal incentivando os homens com dificuldade de ereção a procurar
ajuda médica e psicológica. Desde o lançamento do Viagra há mais de 10 anos,
vários outros medicamentos surgiram fazendo concorrência direta ao pioneiro e
com preços cada vez mais acessíveis. Mas para a mulher nada... Mas porque
ninguém se preocupa com a assustadora taxa de anorgasmia feminina? Porque
ninguém fala no assunto?
Simplesmente porque a capacidade reprodutiva e de dar prazer
da mulher não se altera com a falta de orgasmo. Além disso, o prazer da mulher
não é algo valorizado e a ciência não se interessa em resolver esse problema. Fora
do Brasil existem sim opções de medicamentos que prometem um auxílio nesse
sentido, como o Gold MAX, mas é tudo ainda muito obscuro e mal se fala no
assunto, bem diferente da realidade masculina. Atualmente existe uma corrente
de pesquisadores que trabalha com a utilização do Viagra masculino em mulheres,
mas tudo ainda muito devagar.
É impressionante a quantidade de mulheres que nunca tiveram
um orgasmo, ou que conseguiram poucas vezes na vida, e quase todas elas nunca
contou isso a ninguém. Mas então o que será que acontece com as mulheres? O que
se sabe é que a dificuldade de a mulher atingir o orgasmo durante a relação
sexual tem origem na maioria dos casos em questões psicológicas e emocionais,
sendo raríssimas as dificuldades físicas propriamente ditas.
No aspecto físico podemos citar fatores como o uso dos
anticoncepcionais, antidepressivos, calmantes e outros medicamentos que
diminuem a libido. Também estão nesta lista os vários períodos conturbados na
questão hormonal feminina como, por exemplo, a menopausa e o período pós-parto.
Mas esses fatores são exceções.
O verdadeiro centro da questão está no psicológico e no
emocional da mulher. Vamos aqui conversar sobre vários fatores que podem causar
esse problema.
Desde criança, a mulher é educada para encarar seu corpo
como algo que não deve ser tocado nem explorado, sendo desencorajada e até
punida. Já os meninos e própria cultura encaram a masturbação como algo normal
do adolescente. É até mesmo esperado que o menino se “tranque no banheiro”,
compre revistas de “Mulher Pelada”, fale sobre o assunto. É um tratamento
totalmente oposto do que se daria a um menino flagrado se masturbando no
banheiro do que a uma filha mocinha fazendo o mesmo. A maioria das mulheres não
se toca, não se masturba, não consegue nem atingir o orgasmo sozinha, fica
constrangida até mesmo consigo mesma, sozinha entre quatro paredes. Ai fica
aquela coisa: “Se sou casada (ou namoro), não tenho necessidade disso” ou “Meu
marido não pode saber que faço isso, o que ele iria pensar”? Como se
masturbação fosse coisa de mulher sozinha e mal amada ou de quem não está
satisfeita com o parceiro. Masturbação é apenas uma maneira de obter prazer com
seu próprio corpo, se conhecer e relaxar. Coisa que os homens há séculos já
entenderam, estão há anos-luz à frente das mulheres nesse quesito.
A preocupação com a estética corporal ou o medo de se expor
durante o ato sexual também contribuem. A mulher é sempre ordenada a se cobrir,
desde criança, e quando nua sente-se constrangida, exposta, vulnerável, sente a
necessidade de se cobrir ou de apagar a luz.
Então aqui temos a primeira resposta: vergonha do próprio
corpo e do próprio prazer. Você pode pensar: “Não é o meu caso, eu sou muito
bem resolvida, não tenho problemas com isso”. Mas a pergunta é: quantas vezes
você parou um tempinho pra curtir seu próprio corpo? Você nunca quis apagar a
luz ou se cobrir?
E a questão vai mais além: se não consegue atingir o orgasmo
sozinha, como vai saber direcionar a relação sexual para atingir seu objetivo?
Algumas mulheres só conseguem em uma posição específica, outras somente com
sexo oral, outras com as pernas fechadas, outras abertas... E a maioria nem
sabe como consegue. É difícil mostrar o caminho das pedras se você nunca passou
por ali sozinha.
O segundo problema que encontramos é que apesar de ser
desencorajada a se tocar desde criança, de o assunto masturbação- prazer ser um
tabu, ironicamente a mulher sente na pele a ditadura do “tenho que ter um
orgasmo ou meu parceiro vai pensar que sou frígida”. É um mito dizer que TODAS
as mulheres tem orgasmos em TODAS as relações sexuais, mas é o que a sociedade
prega, os filmes mostram... O mito da mulher que sempre chega lá é uma
inverdade. Primeiramente porque depende de questões emocionais e psicológicas
envolvidas, segundo, pois a questão não é tão simples assim. O que ocorre é que
desde o inicio do namoro a mulher se sente pressionada, quer passar uma boa
imagem, “cansa” de tentar, tem medo que o parceiro se canse e acaba indo pelo
caminho mais fácil: fingir pra acabar com aquela pressão, o que vai se
repetindo em outras relações do casal. O que era pra ser prazeroso acaba sendo
algo que se deseja que termine logo, tamanha a pressão que a mulher sente
durante a relação e ela desiste de tentar. E depois que se começou fingindo,
como dizer a verdade? Como desfazer isso? Chegamos a mais uma resposta: a ansiedade
e a pressão por ter o orgasmo. É um ciclo vicioso – a ansiedade leva ao não
orgasmo e o não orgasmo leva à ansiedade.
Outro grande mito: o de que a penetração é o principal
componente do orgasmo feminino. A maioria dos homens (e acredite das mulheres)
ignora o fato de que o grande centro do prazer sexual da mulher não é a vagina
e sim o clitóris – que equivale ao pênis no homem. Sim, esse que aparece como
um mero figurante na cena sexual na verdade é o ator principal. A quase
totalidade das mulheres chega ao orgasmo SOMENTE com a estimulação do clitóris
durante a relação sexual, mas muitas mulheres não o fazem, pois tem vergonha de
o parceiro pensar: “Não estou sendo bom o suficiente?” E muitos pensam mesmo, o
que é um erro. Você pode nunca chegar
lá, pois está indo pelo caminho errado, usando o órgão errado. Nossa sociedade
elegeu o Falo (órgão masculino) como o principal componente do prazer feminino,
sendo que na verdade o que dá prazer a cada ser humano está no seu próprio
corpo, no caso da mulher o clitóris. Assim chegamos a mais uma questão: a
desinformação e o preconceito que fazem com que a mulher não se conheça e que o
homem também não entenda como o corpo da mulher funciona, e continue achando
que somente a penetração é o suficiente. Outra série de questões como o tempo
que a mulher necessita para atingir o clímax – que é maior do que o homem, ou
até mesmo o fato de que a estimulação deve ser constante e sem interrupções são
fatores desconhecidos pela maioria.
Enfim, leitoras não há um Viagra feminino e milagroso, mas o
mais importante é que a mulher saiba que é possível ser diferente. E saiba que
cada mulher não está sozinha, há milhões de mulheres passando pela mesma
dificuldade. Não há nada de errado com essas mulheres, elas apenas precisam se
conhecer mais e buscar ajuda. São séculos de repressão sexual, não é fácil
quebrar esses tabus. Certa vez li uma frase brilhante: “o órgão sexual
principal da mulher está na cabeça”, por isso o fator psicológico é tão
importante.
Conversando sobre o assunto, dando uma passadinha na Sex
Shop, lendo, informando-se e buscando ajuda, a mulher pode dar um passo
adiante. Auxílio médico e psicológico ajudam a tornar a vida sexual mais rica,
feliz e verdadeira. O importante é não
desistir e não se conformar com somente dar prazer, é necessário e saudável, é
essencial ter prazer na relação sexual.

