Todos nós, desde que nascemos passamos a maior parte do
nosso tempo em família. Ela é essencial para que possamos ter uma sensação de
pertencimento e acolhida diante das dificuldades que a vida nos oferece. O
paciente portador de transtorno mental – seja ele qual for – precisa ainda mais
da família do que as outras pessoas, dependendo dela para as atividades
diárias, o que de certa forma acaba por desgastar o bom convívio entre os
membros da família.
A doença mental geralmente interfere nas relações familiares,
gerando raiva, sentimentos de impotência, frustração, desgaste físico e
emocional, cansaço, medo, agressividade, dentre outros. É preciso levar em
consideração que muitas vezes a família toda pode vir a adoecer junto com o
paciente, tamanho o desgaste e o cansaço.
Quando recebe o diagnóstico, a família pode ser acometida
por sentimentos de negação da doença, relutando em aderir ao tratamento,
buscando soluções mágicas, ou acreditando que se não derem importância àquilo
os sintomas vão “desaparecer” sozinhos. Outro comportamento comum é a
culpabilização de si mesmo ou de terceiros pelo transtorno que acomete o
paciente. Seja um problema na gravidez, seja genético, seja fruto de “erro na
criação”, seja trauma de infância – a família busca o “culpado” pelo
transtorno. Sentimentos como raiva ou superproteção em relação ao paciente
também são comuns.
Com o passar do tempo, a família tenta se ajustar ao
convívio com o familiar que não é mais visto como o filho, pai, ou irmão: é
visto como “o doente”. Ele “encarna” a doença e a família passa a enxergar
apenas os sintomas que ele apresenta e não mais o familiar amoroso e querido.
Alguns padrões de comportamento da família também emergem no
convívio com os portadores de transtornos mentais e podem interferir diretamente
no estado do paciente:
Permissividade: A família acredita que por o parente ser
“doente”, não podem ser contrariado, não podem discordar dele em nenhum
momento, e ceder a todos os seus desejos. Há casos de pacientes que fumavam 90
cigarros por dia, pois a família acredita que deva concordar com todas as suas
vontades e atendê-las.
Agressividade: A família está tão cansada que passar a se
tornar agressiva e hostil com o paciente, com discussões e gritos que podem
evoluir para agressões físicas de ambas as partes.
Alto nível de exigência: A família se torna excessivamente
exigente quanto aos comportamentos e sintomas que o paciente muitas vezes não
consegue controlar. Podem vir a cobrar dele uma normalidade acima do comum. É
curioso verificar que a família fica tão afetada pelo transtorno, que
comportamentos do paciente que seriam considerados “normais” para todas as
pessoas, são considerados sintomas de crise ou surto, como fazer amizade no
ônibus ou ficar nervoso ao perder um objeto.

Anulação do cuidador: Muitas vezes a família ou alguns
membros mais próximos ao paciente por falta de organização ou condições – acaba
por se auto anular. Vive para cuidar do familiar, negligenciando todos os outros aspectos da
sua vida, o que pode levar à depressão ou outras formas de adoecimento
psíquico. Isso também é prejudicial, pois deixam transparecer ao paciente seu
cansaço, frustração, parecendo que o paciente é um estorvo, o que pode gerar
fugas e comportamentos agressivos no paciente. Ter uma atividade física, participar de grupos de caminhada,
“academia ao ar livre”, fazer uma boa leitura, enfim, ter um tempo para si, São
maneiras de prevenir o adoecimento da família e dos cuidadores. Buscar
atividades de lazer que incluam os pacientes também melhora o ambiente familiar
e reaproxima a família. Procurar apoio em grupos de família também pode ser uma
ferramenta poderosa, compartilhando as angustias e frustrações com familiares
de outros pacientes.

O hospital Francisca Julia oferece semanalmente aos
familiares dos pacientes internados no hospital o “Encontro de família”. Esses encontros são
coordenados pelo corpo técnico do hospital, sendo que cada semana um setor
conversa com as famílias sanando duvidas e orientando quanto as especificidades
de sua área. São os Psicólogos, a assistente social, terapeutas ocupacionais e
enfermeiras do hospital. Nas reuniões são fornecidos esclarecimentos a respeito
da doença, orientações sobre como proceder, sobre os medicamentos e o
funcionamento do hospital. Também é trabalhado o aspecto emocional e psíquico
dos familiares.
Buscar informações a respeito do transtorno mental do seu
familiar é essencial, pois favorece o entendimento dos comportamentos
(sintomas) do paciente e, além disso, melhora o ambiente familiar.
Priscila Mathias
Psicóloga Hospital Psiquiátrico CVV Francisca Júlia
CRP 06/118786