quinta-feira, 14 de maio de 2015

A família e o Paciente Psiquiátrico (doente mental)


Todos nós, desde que nascemos passamos a maior parte do nosso tempo em família. Ela é essencial para que possamos ter uma sensação de pertencimento e acolhida diante das dificuldades que a vida nos oferece. O paciente portador de transtorno mental – seja ele qual for – precisa ainda mais da família do que as outras pessoas, dependendo dela para as atividades diárias, o que de certa forma acaba por desgastar o bom convívio entre os membros da família.
A doença mental geralmente interfere nas relações familiares, gerando raiva, sentimentos de impotência, frustração, desgaste físico e emocional, cansaço, medo, agressividade, dentre outros. É preciso levar em consideração que muitas vezes a família toda pode vir a adoecer junto com o paciente, tamanho o desgaste e o cansaço.

Quando recebe o diagnóstico, a família pode ser acometida por sentimentos de negação da doença, relutando em aderir ao tratamento, buscando soluções mágicas, ou acreditando que se não derem importância àquilo os sintomas vão “desaparecer” sozinhos. Outro comportamento comum é a culpabilização de si mesmo ou de terceiros pelo transtorno que acomete o paciente. Seja um problema na gravidez, seja genético, seja fruto de “erro na criação”, seja trauma de infância – a família busca o “culpado” pelo transtorno. Sentimentos como raiva ou superproteção em relação ao paciente também são comuns.


Com o passar do tempo, a família tenta se ajustar ao convívio com o familiar que não é mais visto como o filho, pai, ou irmão: é visto como “o doente”. Ele “encarna” a doença e a família passa a enxergar apenas os sintomas que ele apresenta e não mais o familiar amoroso e querido.
Alguns padrões de comportamento da família também emergem no convívio com os portadores de transtornos mentais e podem interferir diretamente no estado do paciente:

Permissividade: A família acredita que por o parente ser “doente”, não podem ser contrariado, não podem discordar dele em nenhum momento, e ceder a todos os seus desejos. Há casos de pacientes que fumavam 90 cigarros por dia, pois a família acredita que deva concordar com todas as suas vontades e atendê-las.

Agressividade: A família está tão cansada que passar a se tornar agressiva e hostil com o paciente, com discussões e gritos que podem evoluir para agressões físicas de ambas as partes.
Alto nível de exigência: A família se torna excessivamente exigente quanto aos comportamentos e sintomas que o paciente muitas vezes não consegue controlar. Podem vir a cobrar dele uma normalidade acima do comum. É curioso verificar que a família fica tão afetada pelo transtorno, que comportamentos do paciente que seriam considerados “normais” para todas as pessoas, são considerados sintomas de crise ou surto, como fazer amizade no ônibus ou ficar nervoso ao perder um objeto.


Anulação do cuidador: Muitas vezes a família ou alguns membros mais próximos ao paciente por falta de organização ou condições – acaba por se auto anular. Vive para cuidar do familiar,  negligenciando todos os outros aspectos da sua vida, o que pode levar à depressão ou outras formas de adoecimento psíquico. Isso também é prejudicial, pois deixam transparecer ao paciente seu cansaço, frustração, parecendo que o paciente é um estorvo, o que pode gerar fugas e comportamentos agressivos no paciente. Ter uma atividade física, participar de grupos de caminhada, “academia ao ar livre”, fazer uma boa leitura, enfim, ter um tempo para si, São maneiras de prevenir o adoecimento da família e dos cuidadores. Buscar atividades de lazer que incluam os pacientes também melhora o ambiente familiar e reaproxima a família. Procurar apoio em grupos de família também pode ser uma ferramenta poderosa, compartilhando as angustias e frustrações com familiares de outros pacientes.


O hospital Francisca Julia oferece semanalmente aos familiares dos pacientes internados no hospital o “Encontro de família”. Esses encontros são coordenados pelo corpo técnico do hospital, sendo que cada semana um setor conversa com as famílias sanando duvidas e orientando quanto as especificidades de sua área. São os Psicólogos, a assistente social, terapeutas ocupacionais e enfermeiras do hospital. Nas reuniões são fornecidos esclarecimentos a respeito da doença, orientações sobre como proceder, sobre os medicamentos e o funcionamento do hospital. Também é trabalhado o aspecto emocional e psíquico dos familiares. 

Buscar informações a respeito do transtorno mental do seu familiar é essencial, pois favorece o entendimento dos comportamentos (sintomas) do paciente e, além disso, melhora o ambiente familiar. 

Priscila Mathias
Psicóloga Hospital Psiquiátrico CVV Francisca Júlia
CRP 06/118786


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