terça-feira, 23 de maio de 2017

A Cracolândia e a sujeira embaixo do tapete

O CRP - Conselho Regional de Psicologia se posicionou referente ao tratamento dado aos Dependentes Químicos da CRACOLÂNDIA pela Prefeitura de Sao Paulo - Gestão Doria PSDB.

Abaixo o video publicado no Site do CRP e a Transcrição oficial da Nota de Posicionamento.

Como psicóloga e alinhada com as diretrizes da minha classe deixo uma reflexão... Se poucos instantes apos a "desocupação" violenta e absurda da Cracolândia os SERES HUMANOS que ali estavam terminaram por voltar para a mesma praça, sera que o prefeito não entendeu ainda que "dispersar" a multidão não desaparece com ela e que eles apenas se "mudariam" para outro local...
Sera que ele não nota que apenas esta enfiando a "sujeira" embaixo do tapete e não resolvendo o problema...



CRP SP se posiciona contra mais uma ação violenta do Estado na região da Cracolândia

O Conselho Regional de Psicologia de São Paulo, com indignação, tomou conhecimento da ação policial ordenada pelos Governos estadual e municipal de São Paulo. Reafirmando uma vez mais seu compromisso irrestrito e intransigente em defesa dos direitos humanos, manifestamos nossa indignação frente ao ocorrido.
Na manhã deste domingo, na semana em que celebramos o dia Nacional de Luta Antimanicomial (18 de maio) e reafirmamos o compromisso da luta por uma sociedade sem manicômios, do cuidado em liberdade e defesa dos Direitos Humanos, cerca de 450 policiais civis e outros 450 policiais militares, incluindo a tropa de Choque e os grupos de operações especiais da Polícia Civil invadiram truculentamente a Cracolândia, região central da cidade de São Paulo, de forma opressora e violenta. A operação utilizou-se de mecanismos de asilamento e encarceramento  realizando uma operação de higienização do território. Pessoas foram sitiadas, impedidas de circularem. Atestando mais uma vez a truculência da ação, a GCM impediu que instituições públicas e organizações civis acompanhassem a ação realizada pela prefeitura. Foram presas, aproximadamente 80 pessoas, entre elas 69 usuários, o que evidencia o propósito higienista frente a incapacidade e falta de interesse do Poder Público em enfrentar a questão de modo a tratá-lo como uma questão de saúde pública.
Devemos ressaltar que, apesar da magnitude da ação desse domingo, ações com o mesmo caráter repressor têm sido recorrentes na mesma região. Ainda na sequência da ação policial ocorrida, o prefeito de São Paulo anuncia o fim do Programa de Braços Abertos, objetivando a substituição pelo programa denominado “Redenção”. O CRP  tem acompanhado a construção do Programa Redenção pela prefeitura juntamente com outros Conselhos da área da saúde e assistência e, por meio deste histórico, verificamos que ele não tem base teórica, ignorando a Política de Redução de Danos, amplamente embasada em pesquisas de universidades e posto em prática, provando sua efetividade. Questões básicas e fundamentais para o cuidado da pessoa em sofrimento psíquico decorrente do uso de álcool e outras drogas, como a integralidade, a intersetorialidade e a atenção em rede, princípios, inclusive, atestados pela OMS, são ignoradas. Além de ignorar os princípios fundamentos do Sus, o Programa Redenção estabelece a entrada de dispositivos privados na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) com o estabelecimento de parcerias com comunidades terapêuticas, instituições que ferem, em larga medida, os direitos humanos, encarcerando e isolando usuários com a prerrogativa do tratamento. 
A política sobre álcool e drogas de Dória e Alckmin é focada na repressão em detrimento do cuidado e promoção de bem estar. Seus principais aliados são a Secretaria de Segurança Pública, especialmente as polícias e o Sistema de Justiça, judicializando a saúde e negando o cuidado em liberdade por meio de internações compulsórias. O governador Alckmin anunciou  mais de 3000 vagas para essa categoria de internação.
Apesar do apontamento de Conselhos Profissionais, na defesa da rede pública e da garantia de cuidado digno, em liberdade e de base comunitária, a intransigência dos defensores da lógica proibicionista e punitivista impediu a participação e locução das entidades e movimentos sociais e Conselhos Profissionais na construção de políticas públicas baseadas na garantia de direitos,  como o acesso ao cuidado por meio de serviços públicos qualificados e humanizados. Após as reuniões com a prefeitura e nossa recusa em concordar com o programa Redenção, o CRP SP buscou contato com Poder Público Municipal, em 10/05/2017, por meio de nota de posicionamento, sem qualquer retorno da gestão do município.
Reconhecemos, assim,  nessas ações do Governo do Estado e da Prefeitura de São Paulo violações graves de direitos humanos, atacando as pessoas da região com bombas e prisão indiscriminada. Reconhecemos, ainda, que a Prefeitura não cumpriu acordo com várias entidades e movimentos sociais de não usar força policial para lidar com a situação, em reunião convocada pela prefeitura e Ministério Público. Também reitera seu posicionamento de que a questão referente ao álcool e drogas é uma questão de saúde e não de polícia e justiça, defendendo a presença das políticas públicas na abordagem realizada com esses usuários, além de defender o tratamento em liberdade e na comunidade.
Assim, novamente e quantas vezes forem necessárias, evidenciamos e nos posicionamos incisivamente contra as ações e planos acerca de políticas sobre álcool e outras drogas adotadas pelo Governo do Estado e Município de São Paulo caracterizadas pelo silenciamento e segregação. Trata-se de um ataque à dignidade humana e à população. O interesse público é ignorado e violentado.
 A que e a quem serve a lógica higienista e probicionista?

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Seu filho precisa mesmo ser tão feliz?

No meu tempo de criança, os pais eram pessoas esforçadas pelo sustento da família. Com ostentação ou sem, as pessoas eram mais preocupadas com o trabalho do que com ser feliz. Talvez por isso, já que filhos querem sempre fazer tudo diferente dos pais, agora todo mundo quer fazer o filho feliz, acima de tudo. Isso explica os valores escandalosos que se paga hoje em dia por uma festa de aniversário, a quantidade de brinquedos que as crianças têm e o número enorme de brasileiros indo para a Disney, às vezes para passar o final de semana. Claro que existe a culpa de muitos pais que trabalham demais e tentam compensar os filhos de alguma forma. Mas reflexo da culpa ou não, as crianças de agora nasceram para ser felizes. Será que está certo isso?
Vamos lembrar da nossa infância. Eu pelo menos, era muito feliz. Brincando com minha amiga que morava na casa ao lado, passávamos horas penteando o cabelo uma da outra, ou fazendo comidinha com as plantas do jardim. A maior aventura de que me recordo era brincar de pega-pega com o meu cachorro. Muito básico para você? Acontece que meu cachorro se transformava em uma onça que na verdade era uma Medusa, então em um simples olhar, ele poderia nos transformar em pedras. Por isso estávamos sempre equipadas com frascos vazios de shampoo cheios de água que explodiam como granadas quando caiam no chão. Pois é, criança vem com imaginação de berço. Por isso não precisa ir até Orlando ver os espetáculos de fogos de artifício para ficar maravilhada. Aliás, cá entre nós, já estive na Disney 3 vezes (2 em Orlando e 1 em Paris) e nunca vi tanta criança triste em um parque. Chorando, cansadas, angustiadas, com as mães e os familiares estressados. Claro, já viu o tamanho do lugar? E a quantidade de informação? E de sorrisos maquiados, brilhos, alegria explosiva? Gente, somos humanos. Isso não é um filme. É vida real. Não somos super heróis, nem princesas. Seu filho vai comer aquela salsicha processada junto com aquele pão velho de uma lanchonete linda com várias coisas girando, e pode ser que passe mal. E ai? Não! Não pode passar mal na Disney. Tem que curtir. Tem que ser feliz.

Eu trabalhei para a Disney traduzindo todos os materiais para português durante 4 anos. Sou encantada com a empresa e com o negócio em si, gosto de ir porque moro a 300 quilômetros de distância, temos o passe anual então é um programa barato em um lugar super organizado e bonito na maioria das vezes. Só estou usando de exemplo porque sei que é uma viagem muito cara para se fazer do Brasil mas isso não está impedindo cada vez mais brasileiros de fazerem. Minha pergunta usando este exemplo é: será que precisamos fazer tanto pelos nossos filhos? (Viagem de 8 horas de avião, filas intermináveis, kilômetros e mais kilômetros de parque de diversão) Eu suponho que não. E que está errado os pais sentirem que são responsáveis por fazer dos filhos, pessoas felizes. De onde tiramos essa ideia maluca?
O que eles precisam na verdade é de adultos para educá-los. E como adultos é claro que estamos ocupados. Com a família, com o trabalho, com as funções da casa. Se nessa lista se somar “a felicidade do(s) meu(s) filho(s)” alguém vai ficar muito sobrecarregado e frustado. Talvez seu filho, talvez você, talvez todo mundo. É chato tentar e não conseguir. Já pensou como sente os pais que pagaram a viagem em 6 vezes, passaram 8 horas na lata de sardinha, mais 1 hora em um brinquedo se o filho sair do brinquedo chorando?
Uma vez eu li o livro Encantador de Cães e fiquei fascinada com o raciocínio simples que o genial Cesar Millan escreve ali. Ele diz que cães só vão obedecer quem eles respeitam. E para ganhar respeito, é preciso ser a autoridade, é preciso colocar ordem antes do amor. Agora tente trocar a palavra “cães” por “filhos”, dá no mesmo. Autoridade é o contrário de democracia. Os pais não podem estar sempre abertos “o que querem comer, o que vamos fazer hoje, onde vamos passar as férias”. Entende como é complicado para a criança ouvir isso? Sentir que não existe uma ordem. Ela no auge dos seus 4 anos (ou por volta disso) é que precisa saber, querer e lidar com seus desejos. Meu Deus, está tudo errado ai. No meu tempo de criança, minha mãe interrompia a brincadeira trazendo uma bandeja com uma limonada fresca e biscoitos Maria. Sempre que lembro dessa cena (que aconteceu várias vezes) ela aparece iluminada como uma fada. O que eu sentia era: Nossa, ela é mágica! Como ela sabe que estamos com fome e com sede? Teria sido bem diferente se ela tivesse aparecido e perguntado: querem lanchar? vão querer sorvete ou pode ser biscoito mesmo? Estava pensando em fazer uma limonada, vocês vão beber? Ou é melhor eu trazer um suco de uva?
Infelizmente não estou escrevendo isso porque já aprendi a lição depois de ler o livro. Estou tentando aprender. E só estou escrevendo sobre isso porque descobri que tenho errado bastante. Desde que nos mudamos para Miami, fico com pena e compaixão por qualquer expressão de sofrimento que meus filhos tenham. Porque sei que é difícil para eles. E até esqueço que é difícil também para mim. Minha vida mudou completamente. Mas nem lembro disso. Só penso neles. A consequência? Minha filha de 4 anos cada dia faz uma coisa para me irritar. E então percebi que ela está fazendo isso porque eu estou irritando ela. E porque? Porque estou aberta todos os dias para ouvir, para entender o lado dela. Não parece errado à princípio, certo? Mas está errado. Criança precisa de adulto, alguém que tenha um norte, e ela acompanha o caminho, se frustando, entendendo seus limites e entendendo, porque não, que a vida não é um parque de diversões cheio de pessoas fantasiadas sorrindo para você o dia todo. A vida é para evoluir. Vamos tentar evoluir como pais antes que eles cresçam. Já pensou como deve ser frustante a adolescência de uma criança que sempre teve uma, duas, ou mais pessoas prontas a atender seus pedidos? Como deve ser difícil perder para um adulto que passou a infância sempre ganhando? Nem que a custa de 12 sofridas prestações para os pais?
Educar dá mais trabalho do que servir o sorvete antes do jantar, já que seu filho está querendo tanto. Educar envolve mais compromisso do que pagar as 6 parcelas da viagem mágica. Educar é coisa de gente grande. Deve ser por isso que crianças não podem ter filhos. Porque filhos precisam de adultos. Parece que esse é o grande problema da minha geração, não queremos ser adultos. Outro dia vi um post sobre a crise dos 25 anos. Levei o maior susto! A maioria das pessoas que conheço estão nessa crise aos 35 (ou mais). Está na hora de dar esse passo. Parar de focar só na diversão e na felicidade e evoluir, amadurecer. Todo grande passo na vida acontece quando a gente faz aquilo que é desconfortável. Já aprendemos muito sobre diversão e entretenimento, que tal agora aprender a viver?
 Retirado de: https://osegredo.com.br/2015/02/seu-filho-precisa-mesmo-ser-tao-feliz/