quinta-feira, 5 de março de 2015

Fiu Fiu... Assédio ou cantada? O lado da mulher.


Ocorre há algum tempo na Internet a campanha “Chega de fiufiu”, que percorre redes sociais e tem seu principal exponente o site http://chegadefiufiu.com.br/
Cresce nas cidades as academias só para mulheres, onde a principal vantagem é poder se exercitar à vontade, vestindo roupas confortáveis e em posições que geralmente nós mulheres tememos ficar por conta do assédio – seja ele direto ou aquela “secada” enquanto você malha o bumbum. Diante de tudo isso, comecei a refletir sobre o assunto, e pesquisando fiquei estarrecida.
Em pesquisa realizada 7762 mulheres brasileiras, a jornalista Karin Hueck mapeou dados que na verdade todas nós mulheres já sabemos. Segundo a pesquisa, 99,6% das mulheres participantes afirmaram terem sido assediadas, e isso ocorre em todos os lugares: na rua, no transporte público, na balada, no trabalho, em parques, shoppings e cinemas.
A pesquisa da escritora vai mais além e revela dados assustadores:
·         83% das mulheres não gostam de receber cantadas, não acham algo legal (só os homens não se dão conta disso)
·         81% das mulheres já deixaram de fazer alguma coisa – ir a algum lugar, passar na frente de uma obra, sair a pé, sair à noite – por medo do assédio. Você já passou por isso?
·         90% já trocaram de roupa – mesmo com calor, por exemplo - por medo do assédio.
·         Apenas 27% respondem aos assédios que ouve na rua contra 73% que escutam caladas, mesmo não gostando. Das que disseram não às cantadas de alguém, 68% foram xingadas, com ofensas que variam de “metida”, “baranga”, “gorda”, “feia”, “mal comida” dentre outras.
·         86% das mulheres foram assediadas na balada, sendo que 82% das mulheres já foram agarradas a força. Quando questionadas como foi (poderia escolher mais de uma opção) as respostas variam de “puxada pelo cabelo” (sim, acredite!), pela cintura, pelo braço, dentre outras.
·         85% das mulheres responderam sim à pergunta: “Já passaram a mão em você?”. As respostas (poderia escolher mais de uma opção) são revoltantes: 17% peitos, 73% bunda, 46% cintura, 14% no meio das pernas (órgãos genitais).
Parece algo muito distante, mas se você parar para pensar, com certeza, vai ver que se encaixa nessas estatísticas. Eu mesma já passei por todas elas: desde as cantadas horríveis na rua, ser agarrada – inclusive no meio da rua saindo da missa, ser assediada na balada, ser vítima da “passada de mão em shows e carnaval”, levar cantada de cliente, de colega, ser seguida por um homem em um carro quando voltava da faculdade, etc...
Moro ao lado de um depósito de móveis, com entrada e saída de caminhões, carregadores, e vários homens ficam na porta durante todo o dia, esperando para descarregar. Entrar e sair da minha casa estava virando um verdadeiro pesadelo, pois todos os dias uma plateia me aguardava descer do carro e ficava encarando e mexendo. Tinha desgosto em pensar em sair de casa – além do medo de sair sozinha às 6:20 da manhã ou chegar em casa e ser atacada. Isso mesmo: ser atacada.
Em um Reveillon em Caraguatatuba, na praia esperando os fogos, praia lotada de pessoas, eu e minhas amigas tivemos que passar por um grupo grande de homens e as barbaridades que ouvimos foram tantas... Os homens pegando as meninas pelo cabelo e pelo braço, vindo pra cima tentando beijar... Aquilo tudo foi tão amedrontador que acabamos indo embora da praia. Sentimos MEDO daqueles homens.
Ao parar em um posto de gasolina cheio de homens e abastecer com o cartão, o meu primeiro pensamento é: Tomara que a máquina de cartão venha até aqui. Porque sair do carro é horrível, só os olhares já ofendem.
Todas sabemos que o que as mulheres sentem nessas situações não é simpatia e interesse pelos homens – é medo!
Um bom exemplo que podemos dar para que os homens entendam isso é a seguinte situação: Você está andando sozinho por uma rua deserta e se depara com um desconhecido com “cara” de suspeito vindo em sua direção. O homem pensa: “Ai meu Deus... Por favor, não roube meu celular” e a mulher pensa ” Ai meu Deus... Por favor, não me agarre, não me estupre!”
Quando repreendidos pelas cantadas, o principal argumento dos homens é “as mulheres gostam”, que é um elogio, de que eles não se ofenderiam se uma mulher os cantasse e outras coisas do tipo. E o pior é que algumas mulheres – inclusive celebridades – dizem gostar de receber cantadas, pois precisam passar em frente a uma obra para “melhorar a autoestima”. Acredito que as (pouquíssimas) mulheres que assim pensam na verdade precisam procurar ajuda psicológica para trabalhar a própria autoestima. Porque se sua autoestima depender da opinião de um estranho na rua, com certeza algo está errado.


Mas será que um homem quando assedia uma mulher em locais públicos, por exemplo, acredita que ela vai voltar e dizer: “Ok lindão, me dá seu telefone?” Ou “Vamos tomar um chopp?” Claro que não. O assédio ocorre em lugares como ponto de ônibus, as ruas, o trabalho ou a faculdade, por onde as pessoas transitam para as mais diversas finalidades, muitas vezes com pressa para chegar a outro local. Muitas vezes o homem está dentro do carro! Homens que chamam mulheres de “gostosa” no meio de uma avenida movimentada certamente não esperam que elas parem.
O que ocorre é que a cantada é algo que o homem se sente no direito de emitir. O tal “elogio” é um julgamento do corpo feminino, o homem faz isso para intimidar, é uma demonstração de poder. Questionados, os próprios rapazes dizem que é para “zuar”, a maioria se diverte com a cara de medo e vergonha das mulheres, principalmente quando estão em grupo e a mulher está sozinha. E se a resposta for negativa então: xingam aos berros e até agridem a mulher – acredite eu já vi isso acontecer. Cantada na rua não é paquera, é intimidação.
E mesmo na balada, paquerando alguém: um homem que tem a coragem de puxar uma mulher pelo cabelo, de tentar beijar à força ou passar a mão em uma garota com certeza é capaz de estabelecer um papo interessante ou simplesmente comentar sobre a banda que está tocando, pedir o facebook...
Para as mulheres que lêem essa reportagem, acessem o site da campanha Chega de fiufiu e dêem uma olhada na sessão de depoimentos. Você ficará assustada e com certeza vai se identificar com vários deles. Já para os homens fica a dica: mulher não gosta de cantada, já está comprovado através de pesquisas que não funciona, então reveja seus conceitos. Se pergunte se gostaria de ver alguém falando barbaridades para sua mãe ou para sua irmã. E aos pais: eduque seu filho para respeitar as mulheres e não ache graça nem ensine a chamar as meninas de “gatinha” quando pequeninos, pois estes serão os assediadores de amanhã.

Caso você seja vítima de assédio – seja ele no trabalho, na faculdade, com o vizinho – denuncie, não fique calada. E saiba: você não está sozinha. O assédio ofende humilha e fere milhares de mulheres todos os dias. Você não é objeto e não precisa aceitar isso. Procure ajuda psicológica e policial. No próprio site da campanha há um Mapa dos locais onde há mais assédio e você pode compartilhar sua história.

Fale sobre o assunto, discuta, publique nas redes sociais. Nós mulheres esperamos que um dia esse tipo de comportamento machista e abusivo seja considerado pela maioria como nojento e criminoso, assim como é hoje o racismo.

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