Ocorre há algum tempo na Internet a campanha “Chega de
fiufiu”, que percorre redes sociais e tem seu principal exponente o site http://chegadefiufiu.com.br/
Cresce nas cidades as academias só para mulheres, onde a principal
vantagem é poder se exercitar à vontade, vestindo roupas confortáveis e em
posições que geralmente nós mulheres tememos ficar por conta do assédio – seja
ele direto ou aquela “secada” enquanto você malha o bumbum. Diante de tudo
isso, comecei a refletir sobre o assunto, e pesquisando fiquei estarrecida.
Em pesquisa realizada 7762 mulheres brasileiras, a
jornalista Karin Hueck mapeou dados que na verdade todas nós mulheres já
sabemos. Segundo a pesquisa, 99,6% das mulheres participantes afirmaram terem
sido assediadas, e isso ocorre em todos os lugares: na rua, no transporte
público, na balada, no trabalho, em parques, shoppings e cinemas.
A pesquisa da escritora vai mais além e revela dados
assustadores:
·
83% das mulheres não gostam de receber cantadas,
não acham algo legal (só os homens não se dão conta disso)
·
81% das mulheres já deixaram de fazer alguma
coisa – ir a algum lugar, passar na frente de uma obra, sair a pé, sair à noite
– por medo do assédio. Você já passou por isso?
·
90% já trocaram de roupa – mesmo com calor, por
exemplo - por medo do assédio.
·
Apenas 27% respondem aos assédios que ouve na
rua contra 73% que escutam caladas, mesmo não gostando. Das que disseram não às
cantadas de alguém, 68% foram xingadas, com ofensas que variam de “metida”,
“baranga”, “gorda”, “feia”, “mal comida” dentre outras.
·
86% das mulheres foram assediadas na balada,
sendo que 82% das mulheres já foram agarradas a força. Quando questionadas como
foi (poderia escolher mais de uma opção) as respostas variam de “puxada pelo
cabelo” (sim, acredite!), pela cintura, pelo braço, dentre outras.
·
85% das mulheres responderam sim à pergunta: “Já
passaram a mão em você?”. As respostas (poderia escolher mais de uma opção) são
revoltantes: 17% peitos, 73% bunda, 46% cintura, 14% no meio das pernas (órgãos
genitais).
Parece algo muito distante, mas se você parar para pensar,
com certeza, vai ver que se encaixa nessas estatísticas. Eu mesma já passei por
todas elas: desde as cantadas horríveis na rua, ser agarrada – inclusive no meio
da rua saindo da missa, ser assediada na balada, ser vítima da “passada de mão
em shows e carnaval”, levar cantada de cliente, de colega, ser seguida por um
homem em um carro quando voltava da faculdade, etc...
Moro ao lado de um depósito de móveis, com entrada e saída
de caminhões, carregadores, e vários homens ficam na porta durante todo o dia,
esperando para descarregar. Entrar e sair da minha casa estava virando um
verdadeiro pesadelo, pois todos os dias uma plateia me aguardava descer do
carro e ficava encarando e mexendo. Tinha desgosto em pensar em sair de casa –
além do medo de sair sozinha às 6:20 da manhã ou chegar em casa e ser atacada.
Isso mesmo: ser atacada.
Em um Reveillon em Caraguatatuba, na praia esperando os
fogos, praia lotada de pessoas, eu e minhas amigas tivemos que passar por um
grupo grande de homens e as barbaridades que ouvimos foram tantas... Os homens
pegando as meninas pelo cabelo e pelo braço, vindo pra cima tentando beijar...
Aquilo tudo foi tão amedrontador que acabamos indo embora da praia. Sentimos
MEDO daqueles homens.
Ao parar em um posto de gasolina cheio de homens e abastecer
com o cartão, o meu primeiro pensamento é: Tomara que a máquina de cartão venha
até aqui. Porque sair do carro é horrível, só os olhares já ofendem.
Todas sabemos que o que as mulheres sentem nessas situações
não é simpatia e interesse pelos homens – é medo!
Um bom exemplo que podemos dar para que os homens entendam
isso é a seguinte situação: Você está andando sozinho por uma rua deserta e se depara
com um desconhecido com “cara” de suspeito vindo em sua direção. O homem pensa:
“Ai meu Deus... Por favor, não roube meu celular” e a mulher pensa ” Ai meu
Deus... Por favor, não me agarre, não me estupre!”
Quando repreendidos pelas cantadas, o principal argumento
dos homens é “as mulheres gostam”, que é um elogio, de que eles não se
ofenderiam se uma mulher os cantasse e outras coisas do tipo. E o pior é que
algumas mulheres – inclusive celebridades – dizem gostar de receber cantadas,
pois precisam passar em frente a uma obra para “melhorar a autoestima”. Acredito
que as (pouquíssimas) mulheres que assim pensam na verdade precisam procurar
ajuda psicológica para trabalhar a própria autoestima. Porque se sua autoestima
depender da opinião de um estranho na rua, com certeza algo está errado.
Mas será que um homem quando assedia uma mulher em locais
públicos, por exemplo, acredita que ela vai voltar e dizer: “Ok lindão, me dá
seu telefone?” Ou “Vamos tomar um chopp?” Claro que não. O assédio ocorre em lugares
como ponto de ônibus, as ruas, o trabalho ou a faculdade, por onde as pessoas
transitam para as mais diversas finalidades, muitas vezes com pressa para
chegar a outro local. Muitas vezes o homem está dentro do carro! Homens que
chamam mulheres de “gostosa” no meio de uma avenida movimentada certamente não
esperam que elas parem.
O que ocorre é que a cantada é algo que o homem se sente no
direito de emitir. O tal “elogio” é um julgamento do corpo feminino, o homem
faz isso para intimidar, é uma demonstração de poder. Questionados, os próprios
rapazes dizem que é para “zuar”, a maioria se diverte com a cara de medo e
vergonha das mulheres, principalmente quando estão em grupo e a mulher está
sozinha. E se a resposta for negativa então: xingam aos berros e até agridem a
mulher – acredite eu já vi isso acontecer. Cantada na rua não é paquera, é
intimidação.
E mesmo na balada, paquerando alguém: um homem que tem a
coragem de puxar uma mulher pelo cabelo, de tentar beijar à força ou passar a
mão em uma garota com certeza é capaz de estabelecer um papo interessante ou
simplesmente comentar sobre a banda que está tocando, pedir o facebook...
Para as mulheres que lêem essa reportagem, acessem o site da
campanha Chega de fiufiu e dêem uma olhada na sessão de depoimentos. Você
ficará assustada e com certeza vai se identificar com vários deles. Já para os
homens fica a dica: mulher não gosta de cantada, já está comprovado através de
pesquisas que não funciona, então reveja seus conceitos. Se pergunte se gostaria
de ver alguém falando barbaridades para sua mãe ou para sua irmã. E aos pais:
eduque seu filho para respeitar as mulheres e não ache graça nem ensine a
chamar as meninas de “gatinha” quando pequeninos, pois estes serão os
assediadores de amanhã.
Caso você seja vítima de assédio – seja ele no trabalho, na
faculdade, com o vizinho – denuncie, não fique calada. E saiba: você não está
sozinha. O assédio ofende humilha e fere milhares de mulheres todos os dias.
Você não é objeto e não precisa aceitar isso. Procure ajuda psicológica e
policial. No próprio site da campanha há um Mapa dos locais onde há mais
assédio e você pode compartilhar sua história.
Fale sobre o assunto, discuta, publique nas redes sociais.
Nós mulheres esperamos que um dia esse tipo de comportamento machista e abusivo
seja considerado pela maioria como nojento e criminoso, assim como é hoje o
racismo.



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