quarta-feira, 8 de abril de 2015

Amanda BBB 15 e a síndrome do Conto de fadas

“Ninguém acredita em contos de fadas, eu vou morrer acreditando. Esse foi o meu conto de fadas mesmo que todo errado, mesmo que eu seja toda errada. Eu descobri que existe amor e que a gente pode ser feliz então eu me doei, eu mais do que nunca me joguei aqui. Eu nunca acreditei em mim, eu nunca me dei valor e aqui eu aprendi que eu sou especial, que as pessoas gostam de mim e isso é uma vitória imensa”.



Essas foram as palavras de Amanda para defender sua permanência na casa, usadas durante o 1 minuto concedido pelo programa para tanto.
Tinha tudo pra ser realmente uma linda história de amor, um conto de fadas, não fosse por um pequeno grande detalhe: não há príncipe. A princesa, presa no alto do castelo, trancada na torre da baixa autoestima e da própria desvalorização, sonha sozinha... Quer desesperadamente a salvação vinda desse príncipe. Ou de qualquer outro.
Isso tudo nos parece muito familiar não é? Afinal de contas desde pequenas as meninas, através do caráter lúdico das histórias infantis, aprendem “valiosas” lições, dentre elas a principal: uma mulher PRECISA de um príncipe encantado para salvá-la e tudo só fica bem no final com a chegada do dito cujo.
Nesta edição do BBB 15, mesmo os que não acompanham o reality acabaram por se interessar pela historia de Amanda, Fernando e Aline na casa. O programa, apesar de não ser lá um “poço de cultura” nos fornece uma pequena amostra do mundo real, pois vemos espelhados nos participantes comportamentos comuns em nossa sociedade. É interessante para a psicologia utilizar dessas historias como ponto de partida para discussões. Eu, que não assistia ao programa, achei interessante acompanhar o desenrolar dessa novela mexicana e poder discutir sobre o assunto.
Vamos falar sobre Amanda. Uma mulher linda, interessante, divertida, inteligente... Mas que adentra ao confinamento com um grande dilema emocional: nunca ter ouvido “eu te amo”. Durante todo o programa, esse foi o grande trauma da participante, discutido e comentado por todos. E ela quer muito ouvir, ela chega a pedir a seu amado que o diga, ela o pede em namoro. Uma, duas, três, várias vezes até na mesma noite. Ela chora... Se desespera... Repreende a sim mesma. Sabe – e diz em alto e bom som – que está se humilhando, sente-se “burra” por estar fazendo esse papel. Mas depois retoma seu fôlego e seu comportamento.
Amanda diz mais de uma vez, para Fernando: "Pra quem nunca teve nada, isso é muito". Mas o que o rapaz a oferece? Fica claro para todos que assistiram que ele não corresponde minimamente ao sentimento dela.
Ao ver a família e os amigos da morena reunidos da final do programa, me pergunto se ela realmente nunca ouviu um “eu te amo”. Uma família tão afetuosa e amigos tão presentes devem em algum momento da vida dela, mesmo que na infância ter dito a tão esperada frase. E pode ter certeza que disseram. E várias vezes...
Mas não é isso que Amanda precisa, ela quer ouvir isso de um homem. Dessa frase, dessa atenção, depende toda sua auto estima, seu senso de valor próprio, seu sucesso como pessoa. Ela depende disso para ser feliz e sentir-se completa. Amanda assim como muitas mulheres sofre de um mal comum: a “síndrome do conto de fadas”. Não, não é uma doença catalogada no CID, é apenas um trocadilho meu, mas muita gente ao ler isso com certeza vai saber do que estou falando.
Esperar pelo príncipe encantado pode ser fofo e romântico, mas leva muitas mulheres à total falta de amor próprio e autoestima destruída. Focar sua vida, seus planos, seu futuro, suas decisões e seu destino no projeto “príncipe encantado” é a melhor maneira de se expor e se machucar com certeza.
Uma mulher que age dessa maneira tem quase que receita infalível para o coração partido. Carente e desejosa de afeto, aceita qualquer migalha que seus parceiros lhe oferecem. Dessa maneira fica fácil se iludir com alguém que não tem o mesmo sentimento por ela e sair machucada da história. E sentir-se menos amada, mais carente e com a autoestima mais baixa ainda. Exatamente a história de Amanda.
Ao dizer em seu discurso que nunca acreditou em si mesma e nunca se deu valor, Amanda resume exatamente o centro da questão.
A mulher que tem seus próprios objetivos de vida sejam eles profissionais, espirituais ou pessoais tende a depender menos da aprovação e do “eu te amo” do companheiro para ser completa. Ela sabe que seus sucessos e conquistas são o “eu te amo” que a vida lhe oferece. Ela sabe dizer “eu te amo” a si mesma quando não aceita migalhas em seus relacionamentos. Ela não depende do elogio de um homem para se achar linda. O homem dos sonhos é um complemento da vida, é alguém que vem para somar e não a razão da existência. Ela não precisa ser salva.
Dessa forma, naturalmente quando o “príncipe” aparecer ela vai poder relaxar e aproveitar, se valorizar nesse relacionamento, sentindo-se segura e não dependente dele para viver.
Se você ainda não consegue se amar dessa maneira não se sinta culpada. Você foi ensinada desde criança a esperar o príncipe encantado. Mas isso pode ser revertido... Diga “eu te amo” a si mesma hoje e comece a se transformar, uma das maneiras de fazer isso é através da terapia.
Milhares de mulheres vivem como Amanda. Buscando em cada relacionamento príncipe encantado, buscando sentir-se bem consigo mesma através do olhar e da aprovação do outro. E quando não conseguem, sentem-se perdedoras e insignificantes.

Amanda não saiu vencedora do BBB. Não ganhou um milhão e meio e nem o príncipe encantado no final. Somente será vencedora quando conseguir amar-se primeiro para que os outros possam amá-la por consequência e dessa forma tornar-se a princesa que tanto almeja ser.

4 comentários:

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  2. Ótimo texto! E a ênfase é realmente naquela velha história machista de que os homens são a peça chave da sociedade. A necessidade básica até para uma mulher ser feliz, dependendo assim de sua aprovação por completo para qualquer circunstância. Um conceito que ainda demanda tempo mas acredito que aos poucos as mulheres vão conseguir enxergar, como na questão de Amanda, que ter um companheiro é maravilhoso Sim, porém não é e nunca será a base da nossa felicidade genuína. Que saibamos nos amar, nos respeitar e nos aceitar, termos a real noção de quem somos e o que merecemos. Fernando representa todo o machismo e o falso poder de um homem " dominador". Usou ardilosamente seu poder de persuasão, charme e a fraqueza de Amanda. Foi Covarde! Vemos o contrário na posição, até então, de Aline. Aparentemente mais segura, autoestima elevada e focada do trabalho. Nada de "Príncipe encantado" , a Parceria e o Companheirismo é o que sustentam um verdadeiro Amor! Juntos, sempre! Rayssa Domith

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  3. Essas "síndrome " é denominada Complexo de Cinderela por causa do livro homônimo de Collete Dawling, um Best-seller famoso no mundo inteiro onde a autora apresenta um profundo estudo sobre esse complexo sofrido pelas mulheres e mostra que mesmo mulheres bem sucedidas em suas carreiras e independentes financeiramente também sofrem desse complexo. Recomendo-lhe a leitura desse livro. Com relação a participante do Big Brother, ela simplesmente representou um papel ,ali todos fazem trabalho de ator , o programa segue um roteiro e cada um dos atores tem o seu personagem. Já houve uma personagem como essa em outra edição do programa, o BB11 e quem a representou foi Maria Melilo que inclusive foi a vencedora dessa edição e virou garota propaganda da versão brasileira do best seller de auto ajuda Make Every Man Want you (Deixe os Homens aos Seus Pés aqui no Brasil) que apesar do título incentiva as mulheres a se valorizarem. Esse tipo de personagem, a "gostosona " carente de amor e sexo que implora a atenção de um homem, costuma fazer muito sucesso tanto com o público feminino (que em parte se identifica) quanto com o masculino...Infelizmente.

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  4. Ótimo texto. Parabéns pela exposição de um problema tão comum: a espera do príncipe encantado. .. Ao invés da pessoa se amar espera o amor do outro. .. E cria muita expectativa é se decepciona... Conheço mulheres até com mais idade que está a espera desse príncipe ( que como você mesma disse não existe). Temos que ser felizes nos amando
    Beijos

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